Mounjaro e Wegovy fazem perder músculo? O que as evidências realmente mostram...
“Comecei Mounjaro. Como faço para não perder músculo?”
Essa pergunta aparece cada vez mais. E faz sentido.
Com perdas de peso que podem ser bastante significativas com medicamentos como tirzepatida e semaglutida, surgiu também um medo: será que parte desse peso está vindo do músculo? A resposta curta é: pode haver perda de massa magra durante o emagrecimento. Mas isso não significa automaticamente perder músculo de forma preocupante. E muito menos desenvolver sarcopenia. Essa diferença é importante.
O que as evidências mais recentes mostram?
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 reuniu sete ensaios clínicos randomizados, com 821 participantes, que avaliaram medicamentos da classe dos GLP-1 em doses utilizadas para tratamento da obesidade. Os pesquisadores queriam entender o que acontecia com a massa magra durante o emagrecimento. O resultado mostrou uma redução média de 1,74 kg de massa magra nos grupos que utilizaram esses medicamentos. Parece assustador.
Só que existe um detalhe importante: os resultados variaram enormemente entre os estudos. A heterogeneidade estatística foi de 98%, o que significa que não faz sentido pegar essa média e dizer que “quem usa GLP-1 perde 1,74 kg de músculo”. E existe outro problema nessa frase. Massa magra não é sinônimo de músculo.
Massa magra não é a mesma coisa que músculo
Quando um exame como DXA ou bioimpedância estima massa magra, ele não está medindo apenas o seu músculo esquelético.
Essa medida também sofre influência de água corporal, órgãos, tecido conjuntivo e outros componentes do corpo. Durante uma perda importante de peso, mudanças na hidratação e nos estoques de glicogênio também podem modificar esse número. Por isso, ver uma redução de “massa magra” em um exame não significa automaticamente que aquela mesma quantidade de músculo foi perdida. E certamente não permite concluir que a pessoa desenvolveu sarcopenia.
Mas então não precisamos nos preocupar?
Também não é isso.
A revisão encontrou, sim, redução de massa magra durante o emagrecimento. A parte interessante é que a perda de gordura foi proporcionalmente maior. Por isso, apesar da redução absoluta de massa magra, a proporção de massa magra em relação ao peso corporal aumentou.
Parece contraditório, mas é simples. Imagine alguém que perde 15 kg de gordura e 3 kg de tecido magro. Ela perdeu tecido magro? Sim. Mas, como perdeu muito mais gordura, sua composição corporal proporcionalmente melhorou. É por isso que olhar apenas para um número da bioimpedância pode contar uma história incompleta.
GLP-1 causa sarcopenia? Essa revisão não demonstrou isso.
E aqui está, para mim, uma das partes mais importantes do estudo. Os ensaios incluídos não forneceram dados suficientes sobre força e função muscular.
Isso importa porque sarcopenia não é simplesmente “ter menos massa magra no exame”. Força e desempenho físico fazem parte dessa avaliação. Uma pessoa pode perder algum tecido magro durante o emagrecimento e, ao mesmo tempo, melhorar mobilidade, capacidade física e força relativa. Sem avaliar função, não podemos concluir que houve uma deterioração muscular clinicamente relevante.
Então frases como “Mounjaro destrói músculo” vão muito além do que essa evidência permite afirmar.
E especificamente Mounjaro e Wegovy?
Aqui precisamos de ainda mais cuidado.
Apesar de a revisão discutir medicamentos usados atualmente no tratamento da obesidade, cinco dos sete estudos incluídos avaliaram liraglutida.
Havia apenas um estudo com semaglutida e um com tirzepatida. Além disso, os dados de tirzepatida não puderam ser incorporados adequadamente à principal meta-análise de massa magra.
Portanto, esse estudo também não permite afirmar que tirzepatida preserva mais músculo que semaglutida, nem o contrário.
Ainda faltam bons estudos comparando diretamente essas medicações e, principalmente, avaliando força e função.
O que realmente importa durante o emagrecimento?
É aqui que a discussão fica mais útil.
Quando uma pessoa está perdendo bastante peso, eu não quero saber apenas quantos quilos desapareceram da balança. Quero entender a qualidade dessa perda.
Como está a alimentação? Existe ingestão adequada de proteínas e energia? Está fazendo treinamento de força? Está ficando mais forte ou mais fraca? Como está o desempenho no treino? A perda está acontecendo rápido demais?
Isso se torna ainda mais importante em pessoas que já apresentam maior risco de perda muscular, como idosos, pessoas sedentárias, mulheres após a menopausa ou quem já começa o tratamento com pouca massa muscular. A bioimpedância pode ajudar a acompanhar tendências, mas também não deveria ser interpretada isoladamente. Hidratação, alimentação, exercício recente e até o horário do exame podem alterar seus resultados.
Minha leitura desse estudo
Para mim, o principal recado não é que devemos ter medo dos medicamentos para obesidade porque existe perda de massa magra. Também não é que podemos ignorar músculo porque a pessoa está emagrecendo. Os dois extremos simplificam demais o problema.
A evidência disponível sugere que grandes perdas de peso podem vir acompanhadas de alguma redução de massa magra, enquanto a perda de gordura tende a ser proporcionalmente maior.
O que ainda precisamos entender melhor é quanto dessa redução representa músculo de fato e, principalmente, se existe impacto relevante sobre força e função. Por isso, durante um tratamento para obesidade, a pergunta não deveria ser apenas: “Quantos quilos você perdeu?”
Talvez uma pergunta melhor seja: “Você está emagrecendo enquanto preserva sua força, sua função e sua saúde?”
Porque tratar obesidade nunca deveria ser apenas fazer a balança diminuir.